As curiosas histórias de países que tiveram seus momentos nas Copas, mas ficaram no passado
Camisas que já fizeram história em algum momento das Copas, mas que não existem mais
O futebol é, muitas vezes, muito mais duradouro que as fronteiras geográficas. Ao folhear o livro de ouro da FIFA, encontramos facilmente nomes de nações que ostentam campanhas históricas, goleadores lendários e uniformes icônicos, mas que hoje não possuem mais hino, bandeira ou assento na ONU. Até a Copa da Itália, em 1990, o cenário praticamente se mantinha intacto. O colapso da União Soviética em 1991, e de outros países da chamada Cortina de Ferro na sequência, fez um verdadeiro “Rebranding” no mapa-múndi, na geopolítica e, claro, nas fronteiras do futebol. Conheça agora um pouco mais das potências “extintas” que ainda assombram os gramados da memória dos torcedores.
1) União Soviética (URSS): O Gigante de Ferro
A URSS foi uma das forças mais temidas do século 20, e não só no futebol. Com o lendário goleiro Lev Yashin (na foto), o “Aranha Negra”, os soviéticos participaram de sete Copas, alcançando como melhor campanha o quarto lugar em 1966, na Inglaterra. A seleção da Rússia (que atualmente está banida das competições da FIFA justamente pela guerra com uma das ex-repúblicas soviéticas, a Ucrânia), herdou todos os registros oficiais, mas nunca mais chegou nem perto de repetir a mesma performance em campo. Isso porque a força daquela equipe vinha exatamente da mistura de talentos de repúblicas que hoje são independentes, como a Ucrânia, a Geórgia e até do Uzbequistão, que em 2026 estreia na Copa do Mundo como nação independente.
Países de tradição e boas participações em Copas do Mundo até a década de 1980, URSS e Iugoslávia se fragmentaram em vários países a partir do colapso do comunismo em 1990
2) Iugoslávia: O “Brasil da Europa” Tecnicamente refinada e historicamente instável, essa poderia ser a lápide da extinta Iugoslávia, que foi semifinalista na primeira Copa do Mundo (1930) e também em 1962. Conhecidos pelo drible curto e visão de jogo, os iugoslavos eram uma potência multiétnica. Tinham, com justiça, o apelido de “Brasil da Europa”, pelo jogo muito mais técnico do que outras seleções europeias e pelo constante “open bar” de craques em campo. Com a morte do General Tito (o grande líder da nação unificada) em 1980, as feridas históricas se abriram novamente, culminando com a fragmentação do país nos anos 1990 e com a sangrenta Guerra Civil, mas ainda assim a Iugoslávia jogou as Copas de 1990 e 1998 (essa já com a presença da Croácia, inclusive semifinalista na sua estreia). E aqui está o ponto: se a Sérvia herdou grande parte do que era a Iugoslávia (incluindo a capital, Belgrado), no futebol o DNA parece ter ficado mesmo com a Croácia, que mantém o estilo de jogo técnico, de craques em profusão (só Modric já encerra essa questão) e resultados expressivos, como as semifinais de 1998 (na estreia) e 2022 e a final de 2018, na Rússia. Além de Sérvia e Croácia, a dissolução da Iugoslávia fez surgir mais cinco nações, e destas, a Eslovênia (2010) e a Bósnia & Herzegovina (2014, no Brasil) já estiveram em Copas, enquanto Kosovo e Macedônia do Norte já bateram na trave para isso e Montenegro ainda parece distante desse sonho.
Fragmentada em sete países a partir de 1990, a Iugoslávia ainda disputou a Copa de 1998
Alemanha Oriental (RDA): O Outro Lado do Muro Enquanto a Alemanha Ocidental colecionava títulos e sempre foi uma das grandes potências do futebol, a vizinha Alemanha Oriental (RDA) era o “patinho feio” da relação: sem títulos, teve apenas uma participação, justamente em 1974, na Alemanha. Porém, a estreia de certa forma foi histórica: um honroso sexto lugar e a vitória contra os “irmãos” do Ocidente (que seriam campeões daquela Copa) por 1 a 0 na fase de grupos. Após a queda do Muro de Berlim em 1989 e a reunificação em 1990, a seleção da RDA deixou de existir, fundindo-se à atual tetracampeã mundial sem deixar grandes marcas. Hoje, o destaque (nem um pouco comunista) é o RB Leipzig, da cidade que fazia parte da RDA e que hoje é uma das forças da Bundesliga por causa da parceria com a Red Bull. Outro clube tradicional da elite do país, o FC Union Berlin, da capital alemã, até 1989 ficava do outro lado do Muro.
SELEÇÃO
ÚLTIMA COPA
MELHOR CAMPANHA
O QUE SE TORNOU HOJE
Iugoslávia
1998*
4º Lugar (1930, 1962)
Sérvia, Croácia, Eslovênia, Bósnia & Herzegovina, Macedônia do Norte, Montenegro e Kosovo
União Soviética
1990
4º Lugar (1966)
Rússia, Ucrânia, Geórgia, Uzbequistão e outras 11 repúblicas
Tchecoslováquia
1990
Vice-campeã (1934, 1962)
República Tcheca e Eslováquia
Alemanha Oriental
1974
6º Lugar (Fase Final)
Parte da Alemanha unificada
Zaire
1974
Fase de Grupos (lanterna)
República Democrática do Congo
*Em 1998 e 2006, o país jogou como “República Federal da Iugoslávia” e “Sérvia e Montenegro”, respectivamente, antes da separação total.
3) A Tchecoslováquia e o “Quase” Mundial Poucas seleções extintas chegaram tão perto da glória quanto a Tchecoslováquia. Foram oito participações até 1990 e dois vice-campeonatos mundiais perdidos para gigantes: o primeiro para a Itália de Giuseppe Meazza (e de Mussolini) em 1934 e o segundo para o Brasil de Garrincha em 1962. Em 1993, na onda da dissolução da Cortina de Ferro, o país se dividiu pacificamente (diferente de outros vizinhos) na chamada “Separação de Veludo”. Curiosamente, a seleção tchecoslovaca ainda disputou as eliminatórias para a Copa de 1994 (não se classificou) como um “time combinado” (RCS) antes de desaparecer definitivamente. Já como República Tcheca (a herdeira natural do histórico e do bom futebol), alcançou o vice-campeonato da Eurocopa em 1996 mas esteve apenas na Copa do Mundo de 2006. Já a irmã Eslováquia teve a sua única participação em 2010, na África do Sul, caindo nas oitavas de final.
Primeiro país da África Negra a disputar uma Copa, o Zaire ficou marcado pela camisa icônica
4) O Caso do Zaire: O Nome que Mudou e o uniforme que virou lenda Em 1974, o mundo conheceu o Zaire, a primeira seleção da África Subsaariana a disputar uma Copa do Mundo. Aqui, vale um contexto: Zaire era desde 1971 o nome do até então Congo Belga, e que a partir de 1997 passou a se chamar República Democrática do Congo. A participação dos “Leopardos” foi marcada por alguns fatos: o uniforme verde e amarelo com um leopardo estampado, um ícone vintage até hoje, a última colocação no Mundial com três derrotas e sem marcar nenhum gol, incluindo um sonoro 9 a 0 para a Iugoslávia (na estreia perderam de 2 a 0 para a Escócia), e a história que só se soube anos após de que no jogo de despedida contra o então campeão Brasil, os chutões para a arquibancada quando o jogo já estava 3 a 0, incluindo o famoso lance quando o Brasil tinha uma falta na entrada da área para cobrar no fim do jogo, tinham uma razão oculta: após a piaba para os iugoslavos (com direito a teorias de corpo mole por desacordos nas premiações), o ditador do país, Mobutu Sese Seko, ameaçou que todo o elenco não retornaria ao país (leia-se…) se levasse uma nova goleada humilhante. Como pelo jeito o ditador era da turma do “3 a 0 não é goleada”, os jogadores acharam por bem não levar o quarto gol de jeito nenhum, e conseguiram! Folclores à parte, a verdade é que seja como Zaire, seja como Congo, o país nunca mais havia passado perto de repetir a façanha até que, 52 anos depois, está a uma partida da repescagem mundial de voltar a uma Copa do Mundo, após bater na trave pela vaga direta (vencia Senegal por 2×0, mas permitiu a virada), mas se redimir com honras nos playoffs do Continente, despachando pra casa as potências Camarões e Nigéria.