Como diria o narrador Galvão Bueno: Tá em crise? Chama o Chile! O bordão famoso é bem-humorado, mas ilustra bem uma das maiores sinas de um país em Copas do Mundo.
A trajetória do Chile nos Mundiais é marcada por um misto de talento técnico e uma barreira geográfica e psicológica intransponível: o Brasil. Nas quatro vezes que o Chile conseguiu avançar da fase de grupos na história das Copas, em todas o destino colocou a Seleção Brasileira em seu caminho.
O retrospecto é implacável, com eliminações traumáticas em todas: em casa na semifinal em 1962, goleadas em 1998 e 2010 e a quase vingança de 62 em 2014, no Mineirão, com a bola de Pinilla no travessão nos acréscimos da prorrogação e depois a derrota nos pênaltis.
O auge doméstico e o carrasco Garrincha
A melhor campanha da história de “La Roja” aconteceu em 1962, quando o país sediou o evento. Naquela ocasião, o Chile chegou às semifinais, mas foi parado pelo brilhantismo de Garrincha, perdendo por 4×2 e abrindo caminho para o bicampeonato brasileiro. O consolo veio na disputa de terceiro lugar, com uma vitória de 1×0 sobre a Iugoslávia, garantindo a maior glória do futebol chileno até hoje.
A cicatriz do Maracanã e o banimento
Um dos capítulos mais sombrios do futebol sul-americano envolveu o Chile nas Eliminatórias para a Copa de 1990. No episódio que ficou conhecido como “O Incidente de Roberto Rojas”, o goleiro chileno simulou ter sido ferido por um sinalizador atirado pela “Fogueteira do Maracanã” Rosenery Mello em um decisivo contra o Brasil pelas eliminatórias. Além da eliminação em campo naquele dia, a farsa foi descoberta, resultando em um banimento severo que impediu o Chile de disputar as eliminatórias da Copa de 1994.
A freguesia consolidada
Nas Copas da França e da África do Sul, o roteiro foi impiedoso. Em 1998, o ótimo Chile da dupla Za-Sa (Zamorano e Salas) caiu nas oitavas após uma goleada por 4×1, com exibições de gala de Ronaldo e César Sampaio. Já em 2010, sob o comando de Marcelo Bielsa, a equipe apresentou um futebol ofensivo e vistoso, mas sucumbiu novamente diante da eficiência brasileira do técnico Dunga: um 3×0 inapelável que encerrou o sonho chileno precocemente.
Ronaldo e Ivan Zamorano após goleada brasileira por 4×1 nas oitavas da Copa de 1998
O trauma do Mineirão e a última dança
Mas a eliminação mais dolorosa ocorreu em 2014, no Brasil. Após um empate em 1×1 no tempo normal e uma bola no travessão de Pinilla no último minuto da prorrogação, o Chile foi derrotado nos pênaltis no Mineirão (o mesmo palco do 7×1 poucos dias depois). O revés marcou a última participação chilena em Copas até hoje, mas também serviu de combustível para a “Geração de Ouro”, que logo em seguida conquistou o bicampeonato da Copa América (2015 e 2016), as únicas taças da história do país.
O fim da Geração de Ouro e o hiato atual
Após o brilho de nomes como Alexis Sánchez e Arturo Vidal na década passada, o Chile enfrenta um período de terra arrasada. A equipe não conseguiu se classificar para as últimas três edições do Mundial: Rússia (2018), Catar (2022) e a recente edição na América do Norte (2026), inclusive ostentando a lanterna das eliminatórias. O hiato evidencia a dificuldade de renovação após o fim de sua maior geração.
A sina do Chile nas Copas
Abaixo, o histórico detalhado da participação chilena no torneio:
COPA DO MUNDO
RESULTADO
ALGOZ
OBSERVAÇÃO
2026
Não se classificou
Terceira ausência seguida, com direito a lanterna das Eliminatórias, e fim melancólico da “Geração de Ouro” de Arturo Vidal, Alexis Sanchez e Cia
2022
Não se classificou
2018
Não se classificou
2014
Oitavas de Final
Brasil
Derrota traumática nos pênaltis no Mineirão após a bola na trave de Pinilla no último lance da prorrogação
2010
Oitavas de Final
Brasil
Time ofensivo de Marcelo Bielsa parou no pragmatismo do Brasil de Dunga: 3×0
2006
Não se classificou
2002
Não se classificou
1998
Oitavas de Final
Brasil
Goleada de 4×1, brilho de Ronaldo e fim da linha para a geração de Salas e Zamorano
1994
Suspenso
Punido pela FIFA (Caso Rojas)
1990
Não se classificou
1986
Não se classificou
1982
Fase de Grupos
1978
Não se classificou
1974
Fase de Grupos
1970
Não se classificou
1966
Fase de Grupos
1962
3º Lugar
Brasil
4×2 na semifinal em casa, com atuação de gala de Garrincha